The Beatles
Beatles:
uma magia imune ao tempo

Maristela Alves

"Os Beatles eram apenas uma banda que foi longe demais"
(John Lennon, 1970)

"Nothing is Beatle-proof". Nada é à prova de Beatles, segundo este diálogo tirado do desenho "Yellow Submarine". Parece que não existe expressão mais adequada para ilustrar o impacto que a música dos Beatles ainda exerce sobre a cultura ocidental, mesmo 30 anos após a dissolução do grupo.

Já foram escritas milhares e milhares de laudas dissecando os mais diversos aspectos da vida e obra dos quatro rapazes, mas nunca ninguém conseguiu dar A Explicação Definitiva sobre o-que-diabos-esses-caras-tinham-de-tão-especial. Longe de mim querer fazê-lo neste texto. Minha intenção é apenas compartilhar com vocês algumas das impressões por mim colhidas sobre os Fabs, de quem sou ardorosa fã há nada menos do que VINTE E TRÊS anos! Espero que estas informações possam agregar algo de novo a todos, ou pelo menos despertar interesse em algum neófito querendo começar a explorar esse mágico legado deixado por John, Paul, George e Ringo.

Por quê eles?
Eles eram os caras certos com o talento certo na época certa. John, Paul, George e Ringo eram representantes da geração que nasceu durante a Segunda Guerra Mundial, que virou adolescente no momento em que os níveis de crescimento econômico dos Estados Unidos e Europa Ocidental atingiam patamares espetaculares. O novo mundo pós-guerra trouxe dinheiro, esperança e desejo de mudança para os jovens, e eles resolveram sair de sua posição subalterna ao poder constituído e criaram seus próprios valores, com o culto ao rock'n'roll e muita contestação.

No caso dos Beatles, a essa rebeldia veio somar-se muito carisma, talento intuitivo para a música e uma boa dose de inconformismo e senso de humor tipicamente inglês. E ainda por cima eles tiveram sorte: associaram-se com um empresário (Brian Epstein) que soube lapidar sua imagem perante o público e com um produtor (George Martin) que respeitava seu talento e os incentivava a crescer musicalmente. Tudo isso os qualificou para serem os porta-vozes de sua geração.

Números
O sucesso resultante dessa feliz conjugação de fatores ainda impressiona, quase 40 anos após a Beatlemania. Eis alguns números que comprovam o gigantismo e a perenidade da obra dos Fab Four:

As vendas de seus discos há tempos ultrapassaram um bilhão de cópias;

Até hoje, eles são os artistas que mais obtiveram primeiros lugares na parada da Billboard;

Em abril de 1964, um feito histórico: os Beatles conseguiram emplacar os CINCO primeiros lugares da parada da Billboard;

Em uma eleição promovida em 1998 junto a críticos e colecionadores de discos dos dois lados do Atlântico para saber quais os melhores 1000 álbuns da história, nada menos que os TRÊS primeiros lugares foram ocupados por discos dos Beatles. Discos dos Fabs ainda aparecem no 5 e 20 lugares.

A coletânea "1", lançada no final do ano 2000, composta por 27 canções que chegaram ao primeiro lugar das paradas nos EUA e Inglaterra, liderou as paradas de sucesso de todo o mundo por várias semanas, e segundo estimativas da indústria fonográfica já é o CD mais vendido da história.

Gaiola dourada
A banda que um dia foi mais famosa que Jesus Cristo já garantiu seu lugar na história. E também inaugurou a era das super-celebridades, com tudo o que de bom e ruim isso acarreta.

Eles tinham todo o dinheiro e fama do mundo, mas paradoxalmente eram prisioneiros do próprio sucesso. Não podiam sair nas ruas, sob pena de serem esmagados por multidões histéricas. Todos seus passos eram milimetricamente vigiados por fãs, imprensa e loucos de todo o tipo. Para não enlouquecerem, em 1966 resolveram parar de fazer turnês e se concentrar apenas no trabalho de estúdio. Nos três anos seguintes, cresceram tremendamente como artistas. Mas também envolveram-se com drogas e com todo tipo de oportunistas que faziam de tudo para "mamar nas tetas" da beatle-fama. Os desentendimentos pessoais se intensificavam, ao mesmo tempo em que os rapazes da banda envelheciam e tornavam-se sedentos por sua própria individualidade.

Paixão e ódio cegos
Mesmo após o fim do grupo, em 1970, eles continuaram a ser adorados mundo afora. Ironicamente, o Beatle que mais se incomodava com o rótulo de celebridade, e que mais furiosamente lutou para se livrar do estigma acabou sendo a mais famosa vítima do "star-system". O assassinato de John Lennon, em dezembro de 1980, mostrou dramaticamente que o culto à celebridade pode dar origem a atos insanos. Infelizmente, os incidentes envolvendo os integrantes da banda não pararam por aí. Em fins de 1999, foi a vez do recluso George Harrison pagar o preço da fama ao ser esfaqueado em sua própria casa por outro maluco ansioso por estar nas manchetes de todo o mundo.

Fora o susto que George passou, a vida dos três beatles sobreviventes vai bem, obrigado. Todos se aproximando dos sessenta anos, tremendamente ricos e ainda muito amados, continuam com suas carreiras. Ringo Starr divide seu tempo entre Londres, Monte Carlo e Los Angeles, e de vez em quando faz filmes e grava discos, com relativo sucesso.George, apesar de lutar contra um câncer, enfrenta os boatos com dignidade e faz participações especiais nos discos de amigos. Já Paul McCartney tem a carreira-solo mais bem sucedida dos quatro. Um dos homens mais ricos da Inglaterra, e o compositor que mais arrecada direitos autorais no mundo, Paul encontra tempo para se dedicar a causas ecológicas, é o patrono de uma conceituada escola de arte em Liverpool, e ainda se dedica ao que sabe fazer melhor: rock'n'roll da melhor qualidade.

No fim, a música acima de tudo
Já disseram ser impossível encontrar um não-iniciado em Beatles no Planeta Terra. Concordo plenamente, mas aqui vou tentar dar umas dicas para quem pretende se aventurar pela música dos Fabs.

Não importa se nos velhos discos arranhados de vinil de seus pais ou no som límpido do CD, o encanto dos Beatles é único. Para os neófitos, as duas famosas coletâneas, "1962-1966" e "1967-1970", também conhecidas como "vermelha" e "azul", cobrem perfeitamente as duas fases da carreira dos Beatles . É muito interessante ouvir a evolução do som dos quatro com o passar dos anos. É surpreendente constatar que o mesmo grupo que gravou a pueril "Love Me Do" em 1962 seja o mesmo que concebeu a incrível "A Day In The Life" apenas cinco anos depois. Isso é que é evolução!

A coletânea "1", apesar de seu tremendo êxito comercial, se atém apenas aos "hits", e não representa tão bem a versatilidade e complexidade da obra dos Fabs

Mas o bom mesmo é ouvir aa TODOS os treze álbuns originais que o grupo gravou, e gostaria de destacar os meus seis favoritos, por ordem de lançamento:

A Hard Day's Night (1964): o melhor álbum da primeira fase dos Beatles. Muitos hits, energia e vibração! Pra tocar bem alto.

Rubber Soul (1965): o álbum que começou a transformação dos "quatro cabeludos simpáticos" em músicos talentosos.

Revolver (1966) : pra mim, o melhor de todos! Os Beatles começam a dominar as técnicas de estúdio e fazem uma obra-prima versátil e irretocável!

Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band (1967): Mais uma vez, eles quebram com as regras estabelecidas, lançam o primeiro álbum conceitual da história do rock e fazem história.

The Beatles, mais conhecido como "Álbum Branco" (1968): um álbum duplo que marca o início do fim, mostrando com mais nitidez as quatro personalidades individuais. Mesmo tenso, tem música de altíssima qualidade.

Abbey Road (1969): o triste fim. Mas não poderia ter sido com mais classe.

É isso aí. Eu poderia me estender ainda mais, mas muitos e muitos já o fizeram muito melhor do que eu. Falar de Beatles é falar da história da música do século XX, e por extensão, das nossas próprias vidas. Como eles mesmos disseram em uma de suas canções, "eles entram e saem de moda, mas ainda garantem um sorriso". E sorrisos sempre são bem vindos, não é mesmo?

Críticas, sugestões? Cartas para a redação!

Maristela Alves
Maristela1968@uol.com.br









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